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Com pouca fiscalização, Baía de Guanabara é porta de entrada para fuzis no RJ

Armamento banalizado em território fluminense é entregue em pequenos barcos em favelas à beira da baía, diz promotor.

Baía de Guanabara é uma importante rota de entrada de armas e drogas na cidade do Rio e na Baixada Fluminense, segundo investigações do Ministério Público do Rio. O policiamento, no entanto, é praticamente inexistente. Marinha e Polícia Militar empurram para a Polícia Federal a responsabilidade por impedir o tráfico nos 380 km² da baía. Segundo informações obtidas pela reportagem fica a cargo de três ou quatro policiais federais por turno. Em 2017, não houve registro de apreensão de fuzis pela PF na região.

Segundo policiais, falta efetivo para combater o tráfico de armas. Fuzis como o .50, exibido em vídeo com aliados do traficante Rogério 157, chegam às mãos de quadrilhas por meio de barcos pequenos com acesso a comunidades à beira da água.

“Navios chegam à baía com armas de grande porte, como fuzis. Dali, são descarregadas para embarcações menores, bastante comuns na região, e distribuídas pelas comunidades que ficam no entorno”, afirma o promotor do Grupo de Ação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP, Alexander Araújo.

As favelas localizadas nas margens dos 380 quilômetros quadrados da Baía de Guanabara e dominadas por traficantes estão em pelo menos três cidades. O Dendê, na Ilha do Governador, Zona Norte da capital; Beira-Mar, em Duque de Caxias; e o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, estão entre os principais pontos de receptação dos fuzis.

“A Baía de Guanabara é uma terra de ninguém. Tudo passa por ali e não há policiamento nenhum. O que chega a surpreender, porque há anos essa travessia de armas ocorre no local. Por ser uma rota de entrada de fuzis mais que conhecida, a baía deveria ser uma área de patrulhamento constante”, afirmou a professora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Candido Mendes, Silvia Ramos.

A facilidade que bandidos encontram para transportar fuzis na Baía de Guanabara não deverá ser comprometida. É o que se pode compreender pelas respostas enviadas pelas forças de segurança.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Polícia Militar informou que o Grupamento Marítimo e Fluvial da corporação atua na Baía de Guanabara apenas no combate a crimes ambientais caso algum armamento seja detectado durante as operações, é levado à delegacia responsável.

Situação semelhante ocorre com a Capitania dos Portos, submetida à Marinha do Brasil. Por meio de nota, o órgão informou o seguinte:

“A Marinha do Brasil, por meio do Comando do 1º Distrito Naval, esclarece que a Capitania dos Portos do Rio de Janeiro atua nas águas interiores e no litoral fluminense, fiscalizando o tráfego aquaviário e cumprindo as atribuições legais da Autoridade Marítima brasileira, no que se refere à segurança da navegação, à salvaguarda da vida humana no mar e à prevenção de poluição ambiental, provocada por embarcações.”

A reportagem apurou Especial de Policiamento Marítimo (Nepom) da Polícia Federal possui um efetivo de 25 agentes, mas apenas três ou quatro atuam em cada plantão: um permanece na imigração do porto e os outros dois ficam no próprio núcleo. O Nepom possui, pelo menos, três embarcações e dois jet-ski, entre elas uma lancha de 45 pés blindada, que demanda quatro policiais um piloto, um tripulante e mais dois agentes armados.

O núcleo vem atuando apenas em apoio às delegacias da Polícia Federal. Já se considerou a criação de um divisão de investigação marítima. No entanto, mais uma vez devido à falta de efetivo, a ideia foi abandonada.

Em 30 de dezembro passado, agentes da Polícia Federal prenderam três suspeitos em flagrante por tráfico de drogas e apreenderam aproximadamente 380 quilos de cocaína que estavam em um barco de pesca na Baía de Guanabara.

Recorde de apreensões

“Arma de cano longo, carabina, espingarda”. É dessa forma, econômica e simples, que os dicionários definem o fuzil. A realidade que envolve essa arma, no entanto, é bem mais complexa.

Marca registrada da criminalidade carioca, o armamento concebido para ser usado apenas em guerras e confrontos de grande proporções, teve sua utilização banalizada na capital fluminense e na Região Metropolitana do Rio – mesmo para cometer crimes de menor potencial ofensivo, é comum ver bandidos portando fuzis.

Segundo o Instituto de Segurança Pública, junho de 2017 foi o mês com o maior número de apreensões de fuzis nos últimos 10 anos: foram 93 unidades, sendo que 61 delas foram apreendidas durante uma operação realizada pela Polícia Civil no dia 1 de junho, no Aeroporto do Galeão. Investigações apontam que as armas foram pedidas pelo traficante Rogério 157, um dos pivôs da guerra que aterrorizou os moradores da Rocinha em setembro de 2017 e que acabou preso no dia 6 de dezembro, na Favela do Arará.

Até novembro de 2017, 400 fuzis já haviam sido apreendidos no Rio de Janeiro.

Ainda assim, o número de fuzis em circulação nas favelas cariocas é tão elevado que as próprias autoridades não se arriscam a estimar quantos estariam nas mãos dos criminosos.

“Essas armas vêm de outros países, tanto vizinhos quanto de nações mais afastadas. O que nós percebemos é que, onde há circulação de mercadoria lícita, como portos, aeroportos e rodovias, também há passagem de material ilegal, como drogas e armas. A fronteira do Brasil é muito grande e o aparato estatal para impedir esse tipo de crime está aquém do necessário. Por isso, o criminoso tenta o tempo todo burlar a fiscalização e fazer com que esse armamento chegue aqui”, diz o titular da Delegacia Especializada em Armas e Explosivos (Desarme), Fabrício Oliveira.

A extensão das fronteiras do Brasil com outros países do continente e a insuficiência de efetivo para patrulhá-las é um elemento que facilita a entrada de armas em território nacional. O país tem 16.886 quilômetros de fronteiras com nove países da América do Sul: Uruguai, Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru, Venezuela, Colômbia, Guiana e Suriname, além do Departamento Ultramarino Francês da Guiana.

“Esses fuzis chegam à América do Sul, na Colômbia e Venezuela, mas sobretudo no Paraguai, vindos dos Estados Unidos, de países do leste europeu e também da China, nação onde são fabricadas armas de qualidade inferior e, portanto, mais baratas. O armamento entra no Brasil tanto por via terrestre quanto, no caso do Rio de Janeiro, por via marítima, aproveitando-se da fragilidade encontrada na Baía de Guanabara”, explicou o promotor.

Para o diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança (Abseg), Vinícius Cavalcante, é impossível fiscalizar uma área tão extensa.

“Temos que deixar uma coisa clara: todo o trabalho e esforço das forças de segurança nas fronteiras podem diminuir a chegada de armas em território nacional, mas é ilusório acreditar que é possível conseguir, com a extensão fronteiriça que o Brasil tem, fechar o país à entrada clandestina de armamento. Tome, como exemplo, a tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, em Tabatinga, no Amazonas. Ali há pontos onde o Rio Solimões possui mais de um quilômetro de distância entre uma margem e outra e por onde passam muitas armas. Como é que se consegue vigiar um espaço desse tamanho?”, indaga.

A rota paraguaia de transporte de armas até o Rio de janeiro é bem conhecida pelas autoridades: o fuzil sai do país, sobretudo das cidades de Pedro Juan Caballero, Salto del Guairá, Ciudad del Este e Capitán Bado, e entra no Brasil por Ponta Porã e Coronel Sapucaia, já no Mato Grosso do Sul.

Dali, as armas são divididas em carros e seguem por rodovias federais – BR-277, BR-369 e BR-374 – até São Paulo. A partir deste ponto, há duas grandes veias de escoamento terrestre de fuzis para o território fluminense: a Via Dutra e a Rio-Santos.

“As armas passam por essas rodovias, não há dúvida. Os traficantes fazem o que chamamos de ‘tráfico pingado’, realizado com grande frequência, mas em quantidades bastante reduzidas, para evitar que se percam muitas armas caso haja uma apreensão. São dezenas, talvez centenas de veículos passando pela Via Dutra e pela Rio-Santos carregando fuzis para os traficantes cariocas quase sempre sem maiores problemas. Mas, é claro, às vezes a polícia consegue fazer algumas apreensões”, explicou Cavalcante.

Apreensões como o carregamento com quase nove mil cápsulas para fuzil e pistola feito no dia 15 de outubro pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), na Rodovia Rio-Santos (BR-101), altura de Itaguaí, na Baixada Fluminense.

Segundo a PRF, a carga seria entregue em uma comunidade da Zona Oeste do Rio. Os agentes faziam uma blitz quando abordaram um Fox, que era conduzido por um rapaz de 21 anos. Ele estava acompanhado da mulher, de 39 anos, e de duas crianças, de 1 e 6 anos. Em um compartimento secreto do carro foram encontradas 4.011 cápsulas para fuzil calibre 5.56 e 4.826 para pistola calibre nove milímetros.

“Nesse caso específico, nosso serviço de inteligência monitorou a comunicação deles. Os criminosos estavam até com batedores para trazer a carga. Eles fazem de tudo para tentar ocultar as armas e a munição – utilizam fundos falsos e até colocam munição e fuzis dentro dos tanques de combustível”, explicou o subcoordenador da PRF no Rio de Janeiro, inspetor Rafael Alvim.

Até o dia 14 de outubro de 2017, a PRF havia apreendido 370 armas nas rodovias que seguiam em direção ao Rio de Janeiro – um aumento de 110,23% em comparação às 176 apreensões no ano passado. A abordagem na Dutra e na Rio-Santos – por onde passam, em média, 90 mil carros por dia – é feita por monitoramento e também por amostragem em blitzes.

“Fazemos patrulhamento diário, permanente. Sabemos que a Dutra e a Rio-Santos são corredores importantes para os criminosos, mas é um equívoco achar que a chegada de fuzis ao Rio de Janeiro se dá apenas pelas estradas”, avaliou Alvim.

“Locais como o Complexo da Maré, por exemplo, possuem importância estratégica para os criminosos: basta observar que aquele conjunto de favelas fica próximo a locais por onde os fuzis podem ser transportados com facilidade, como a Baía de Guanabara, a Linha Vermelha e também o Galeão, que é outra importante porta de entrada. Vale lembrar que a maior apreensão de fuzis feita em muito tempo no Rio de Janeiro aconteceu ali”, diz Vinícius Cavalcante, da Abseg.

Todos os fuzis apreendidos no Galeão durante a operação realizada no dia 1 de junho vieram de Miami dentro de contêineres junto com uma carga de aquecedores para piscinas. Segundo a polícia, o empresário Frederik Barbieri, dono de uma empresa de transportes em Miami, seria o responsável pelo envio das armas – ele negou qualquer participação no episódio.

Na ocasião, Barbieri também afirmou que policiais civis estariam envolvidos no tráfico de armas. Em nota, a instituição informou que, caso as acusações de Barbieri fossem verdadeiras, os agentes “responderiam na forma da lei”.

“O fato é que comprar armas nos Estados Unidos é algo muito fácil. Lá, é possível adquirir um fuzil de forma legal por apenas US$ 1 mil. Ou seja, pode-se comprar uma arma de guerra de maneira lícita e, logo em seguida, enviá-la para o Brasil”, explicou o delegado Fabrício Oliveira, lembrando que, no mercado negro, traficantes pagam entre R$ 50 mil e R$ 70 mil por cada fuzil.

 Modelos

Tanto na avaliação de integrantes do Ministério Público quanto na de agentes da Polícia Civil, há dois modelos de fuzis prioritários na ordem de preferência dos criminosos cariocas: o russo AK-47 e o americano AR-15.

AK-47

“O AK-47 é o fuzil mais vendido do mundo, a arma que você vê com facilidade na maioria dos confrontos armados em qualquer parte do planeta. Isso não acontece por acaso: o AK é prático e quase indestrutível. Pode cair na água e na lama e mesmo assim continua funcionando sem problemas. É uma espécie de ‘pau para toda obra’ com excelente relação custo-benefício. Sua utilização também não requer muito treino”, explicou Cavalcante.

Criado logo após o fim da Segunda Guerra Mundial pelo militar russo Mikhail Kalashnikov, o AK-47 hoje é fabricado em diversas partes do planeta – a arma possui licenciamento aberto, ou seja, sua patente não pertence a ninguém. Estima-se que haja pelo menos 65 milhões de unidades desse fuzil em circulação no mundo.

“Já cheguei a ver, aqui mesmo no Rio de Janeiro, modelos de AK-47 feitos na República Tcheca, Bulgária, Romênia, entre muitos outros países”, relembrou o diretor da Abseg.

AR-15

“Mais leve e bem mais preciso que o AK-47, o AR-15 é a versão semiautomática do M-16 e também uma espécie de resposta americana ao fuzil russo. Não oferece a mesma praticidade do primeiro, mas, nas mãos de um atirador mais habilidoso, sua estrutura dificilmente permite que o alvo não seja atingido. É uma arma mais profissional e sua utilização exige algum nível de treinamento, mesmo que elementar”, disse Cavalcante.

Embora não na mesma proporção que o AK-47, o AR-15 também é fabricado de forma clandestina em diversas partes do mundo. Utilizando munição calibre 5,56, a arma pode disparar entre 750 e 800 tiros por minuto.

Aluguel e leasing

O poder de fogo dos fuzis não se presta apenas a garantir a segurança dos territórios dominados por traficantes. O efeito de intimidação dessas armas fez com que passassem a ser usadas de forma recorrente por bandidos nos mais variados tipos de atividades criminosas, o que ocasionou uma banalização da presença do fuzil no Rio de Janeiro.

“O fuzil é uma arma criada para situações de guerra que praticamente elimina a possibilidade de defesa, mesmo quando um agente das forças de segurança está armado com uma arma mais leve, como uma pistola. Por isso os criminosos passaram a utilizá-la para tudo, até mesmo para a prática de crimes menores. Esse tipo de armamento deixa a vítima sem possibilidade de defesa”, avaliou o promotor Alexander Araújo.

O temor provocado pelo fuzil levou os bandidos a diversificarem sua posse: muitas vezes, a arma é emprestada para outros criminosos, ou seja, ter um fuzil se tornou uma forma alternativa de lucro.

 “Muitos ladrões de carros e cargas utilizam fuzis, que muitas vezes nem pertencem a eles. Esses criminosos alugam o armamento de traficantes e os devolvem logo após as ações. Soa absurdo, mas o crime no Rio de Janeiro inventou e consolidou o leasing de fuzil: uma espécie de ‘aluguel’ para a utilização dessas armas”, explicou a professora Silvia Ramos.

O delegado Fabrício Oliveira informou que algumas investigações feitas pela Desarme apontaram, de fato, para a existência desse tipo de transação comercial de fuzis entre os criminosos.

Fascínio e domínio territorial

Além da força bélica que garante aos criminosos, os fuzis também dão vantagens psicológicas aos bandidos.

“Não bastasse seu poderio letal, a presença do fuzil traz elementos simbólicos. Quando disparado, o som de seu tiro ecoa por vários quilômetros. Moradores de bairros vizinhos às áreas controladas por bandidos sabem que há armas de guerra bem próximas. De certa forma, é como se os bandidos que as utilizam mandassem um recado para mostrar que ali, naquela comunidade, quem manda são eles, não o Estado. Esse tipo de dinâmica, de criminosos armados com fuzis dominando grandes áreas urbanas, acontece em poucas cidades do mundo. O Rio, infelizmente, é uma delas”, afirmou a professora.

“O fuzil é um símbolo de poder e, infelizmente, isso gera uma espécie de fascínio, sobretudo nos jovens arregimentados pelo tráfico. Para crianças e adolescentes que crescem junto à criminalidade, portar um fuzil significa crescimento na hierarquia do tráfico. E isso é muito triste”, lamentou o promotor.

Reação demorada

A demora na criação de uma delegacia especializada no combate ao tráfico de armas é apontada por especialistas como um sinal da demora do Estado no enfrentamento à criminalidade no Rio de Janeiro.

A Desarme nasceu apenas em 2017. A Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (DRAE), que atuava no combate e apreensão ao armamento pesado, foi extinta em 2011. Segundo o governo, na época comandado por Sérgio Cabral, o número de ocorrências era “muito baixo” e não justificava a existência da delegacia.

“Há pelo menos duas décadas, a entrada de armas no Rio de Janeiro é o principal causador de violência no estado. É surpreendente que a Desarme, uma delegacia dedicada a combater esse problema, só tenha sido criada em 2017 – já seria muito tarde se tivesse surgido em 2007. Para se ter uma ideia, em 2009 um helicóptero da Polícia Militar foi derrubado por bandidos no Morro dos Macacos. Pois nem um episódio grave como aquele foi o suficiente para que o Estado criasse uma delegacia que centralizasse as investigações sobre a entrada de armas no Rio de Janeiro”, ponderou a professora Silvia Ramos.

 “Depois que um fuzil entra em uma favela e está nas mãos de um bandido, e isso pode ocorrer inclusive com a corrupção de agentes públicos, o poder dessa arma só poderá ser combatido com o emprego de outro fuzil. Com isso, teremos confronto, troca de tiros e, de forma quase inevitável, a morte de inocentes. Logo, fica evidente que é fundamental impedir a chegada desse tipo de arma aqui”, finalizou.
Fonte: G1

 

 

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